“A única coisa que passa pela minha cabeça é que queria estar com você agora, segurando sua mão e olhando seu sorriso.
“Somente uma coisa me faria bem agora. Seria adormecer com a cabeça no seu colo, você me dizendo bobagenzinhas gostosas para eu esquecer a ruindade do mundo.
“A gente aprende. Se não for ouvindo, é vivendo, na marra.
“É fácil amar o outro na mesa de bar, quando o papo é leve, o riso é farto, e o chope é gelado. É fácil amar o outro nas férias de verão, no churrasco de domingo, nas festas agendadas no calendário do de vez em quando. Difícil é amar quando o outro desaba. Quando não acredita em mais nada. E entende tudo errado. E paralisa. E se vitimiza. E perde o charme. O prazo. A identidade. A coerência. O rebolado. Difícil amar quando o outro fica cada vez mais diferente do que habitualmente ele se mostra ou mais parecido com alguém que não aceitamos que ele esteja. Difícil é permanecer ao seu lado quando parece que todos já foram embora. Quando as cortinas se abrem e ele não vê mais ninguém na plateia. Quando o seu pedido de ajuda, verbalizado ou não, exige que a gente saia do nosso egoísmo, do nosso sossego, da nossa rigidez, do nosso faz-de-conta, para caminhar humanamente ao seu encontro. Difícil é amar quem não está se amando. Mas esse talvez seja, sim, o tempo em que o outro mais precisa se sentir amado. Eu não acredito na existência de botões, alavancas, recursos afins, que façam as dores mais abissais desaparecerem, nos tempos mais devastadores, por pura mágica. Mas eu acredito na fé, na vontade essencial de transformação, no gesto aliado à vontade, e, especialmente, no amor que recebemos, nas temporadas difíceis, de quem não desiste da gente.
“Admito, a culpa foi minha. Foi tudo culpa minha. Eu que vivi esse tempo todo criando diálogos que nunca existiram, fantasiando momentos que jamais aconteceram, e fazendo da nossa história um faz de conta. E você deve tá se perguntando; “Que história?” Essa daí que nunca existiu. Essa daí que eu inventei esse tempo todo. Essa daí que nunca vai acontecer. E é triste ter que admitir pra mim mesma que tá na hora de acordar e viver. Sei que sonhar faz um bem danado, mas depois pra conseguir acordar pra realidade dá um trabalho.